Política

mundo

Entenda os pontos que ligam Vorcaro, Moraes, contratos milionários e viagens de luxo

  • 2 de setembro de 2026
Share on facebook
Share on twitter
Share on whatsapp
Share on linkedin

A investigação da Polícia Federal sobre o Banco Master reuniu informações sobre contratos milionários de honorários advocatícios, uma proposta de pagamento com cotas de um jato e de um helicóptero, além de viagens e experiências de luxo relacionadas ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e integrantes de sua família.

Os episódios constam em um documento que integra a investigação e detalha a relação entre empresas ligadas ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados, pertencente à advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro.

Contrato previa R$ 3 milhões por mês

Um dos acordos identificados pela Polícia Federal previa que o Banco Master pagaria ao escritório 36 parcelas mensais de R$ 3 milhões líquidos. Considerando os tributos previstos no documento, cada pagamento chegava ao valor bruto de R$ 3.646.529,77.

A investigação também apontou que o nome de Alexandre de Moraes aparece nos metadados de duas versões da minuta do contrato firmado com o escritório da esposa.

Os metadados representam um indício técnico de que um usuário identificado com determinado nome realizou a última modificação nos arquivos, mas, isoladamente, não permitem determinar quem estava fisicamente diante do computador nem quais alterações foram feitas.

Em 11 de janeiro de 2024, Viviane Barci de Moraes enviou a Daniel Vorcaro a primeira versão da minuta. Segundo a PF, o documento registrava como última modificação, feita naquele mesmo dia, o usuário “Ministro Alexandre de Moraes”.

Uma nova versão foi encaminhada por Viviane ao banqueiro em 17 de janeiro. De acordo com a análise dos investigadores, os metadados desse arquivo também indicavam como responsável pela última modificação o usuário “Ministro Alexandre de Moraes”, em 15 de janeiro.

O contrato acabou sendo assinado em 23 de janeiro de 2024 por Daniel Vorcaro e Ângelo Antônio Ribeiro da Silva.

Transferências somaram R$ 13,6 milhões

A Polícia Federal encontrou quatro comprovantes de transferências para o escritório de Viviane Barci de Moraes entre fevereiro de 2024 e outubro de 2025. Os pagamentos, de R$ 3.422.268,14 cada, após descontos específicos, somaram R$ 13,6 milhões.

As mensagens analisadas pelos investigadores também indicam a importância atribuída por Vorcaro aos repasses. Em uma conversa de março de 2024, o banqueiro classificou aquele como “o pagamento mais importante” e afirmou que não poderia “atrasar um dia”.

Segundo contrato previa até R$ 50 milhões

A investigação também identificou um segundo contrato de honorários envolvendo o escritório Barci de Moraes, com um “limite máximo remuneratório” de R$ 50 milhões “a título de pró-labore” durante os 36 meses previstos no acordo.

O pagamento poderia chegar a R$ 50 milhões líquidos, já descontados os impostos, e deveria ser realizado pela Viking Participações, empresa da qual Vorcaro é sócio.

O documento previa a possibilidade de quitação por transferência bancária ou “mediante dação em pagamento – de bens imóveis, móveis ou serviços”, permitindo, portanto, o pagamento com bens.

Em uma conversa de 16 de maio de 2025, o advogado Leonardo Palhares encaminhou duas propostas relacionadas à quitação do contrato. Uma das minutas previa o pagamento de R$ 40 milhões por meio da transferência de cotas de duas aeronaves, um jato e um helicóptero. Os R$ 10 milhões restantes seriam destinados ao reembolso de despesas relacionadas ao uso dos equipamentos.”Os ativos mencionados seriam dois bens vinculados às empresas F24 (FRACTION 024 ADMINISTRACAO DE BEM PROPRIO S.A.) e F53 (PT-PCT ADMINISTRACAO DE BEM PROPRIO). A F24 é possuidora da aeronave modelo Legacy 650, prefixo PP-NLR, enquanto a F53 estava em fase de aquisição do Helicóptero EC 155 B1, fabricado pela Airbus Helicopters”, escreveu a PF.

Em outra conversa reproduzida no relatório, Marcos da Mata, sócio de Vorcaro, perguntou a Viviane Barci de Moraes: “Estão gostando da utilização das cotas de vocês”? Ela respondeu: “Sim, estamos gostando muito”.

Após a divulgação do relatório, o escritório Barci de Moraes informou, em nota, que não assinou um segundo contrato com empresas ligadas a Daniel Vorcaro e que não aceitou os termos da negociação. Segundo a defesa, por isso, não recebeu cotas de aeronaves nem outros ativos previstos na proposta.

Experiência de luxo em Campos do Jordão

O relatório também descreve uma recepção organizada por Vorcaro no Six Senses Botanique, hotel localizado na região de Campos do Jordão, em São Paulo, para uma comitiva relacionada nas mensagens ao nome “Alex”.

Segundo a Polícia Federal, a programação previa almoço, a contratação de um chef particular identificado como Zé Maria, passeios a cavalo e assistência de funcionários ligados ao banqueiro. O planejamento considerava o atendimento de nove convidados e quatro seguranças.

Em uma conversa com um contato salvo como Thatiane Prime, Vorcaro afirmou que promoveria um almoço no dia 30 e determinou uma estrutura especial para o grupo. “Tem que ser experiência completa. Convidados ultra vips”, escreveu.

Viagem e fórum em Londres

A investigação também aborda a participação de Alexandre de Moraes no I Fórum Jurídico Londres Brasil de Ideias, realizado na capital britânica entre os dias 24 e 27 de abril de 2024. Segundo o material reunido pela Polícia Federal, as despesas relacionadas à viagem seriam custeadas.

Em 28 de março daquele ano, uma mensagem atribuída a Alexandre de Moraes e enviada ao ministro Gilmar Mendes convidava o colega para participar do evento. “A estadia poderá ser até 28/4. É organizado pelo CONJUR, Correio Braziliense e Banco Master. Topa?”.

Outros diálogos analisados pela investigação indicam que Moraes participava de discussões relacionadas aos convidados, vetos e à programação do fórum.

A estrutura montada para a viagem também incluía transporte terrestre exclusivo para parte das autoridades presentes. Segundo a Polícia Federal, veículos Mercedes-Benz S-Class com motoristas foram disponibilizados para participantes considerados VIPs, entre eles Alexandre de Moraes e o ministro Dias Toffoli.

Já a segunda edição do evento, prevista para 2025, não chegou a ser realizada. Ainda assim, uma mensagem enviada em abril daquele ano pela funcionária de marketing Ana Matos informava a Vorcaro que um assessor de Alexandre de Moraes havia entrado em contato para tratar da emissão de uma passagem aérea. A resposta do banqueiro foi direta: “Pode fazer”.