O projeto Os Chicos, de autoria do jornalista Gustavo Nolasco e do fotógrafo Leo Drumond resultou na produção dois livros, um com histórias de Franciscos e Franciscas que eles encontraram ao percorrer este rio desde a sua nascente até a foz, viagem iniciada em 2008 e só concluída em 2011.
Ao longo desse trajeto Leo Drumond foi fotografando pessoas e paisagens associadas ao rio. Desse trabalho conjunto surgiram dois livros: um com textos leves, narrativas de ribeirinhos, Franciscos e Franciscas que, na sua pureza revela também as carências dos moradores das margens do rio, e o descaso, a agressão, a falta de cuidados e de políticas públicas para manter vivo o único rio totalmente brasileiro, responsável pelo desenvolvimento e riqueza do Nordeste.
Este último poderia se chamar FotoPoesia, tal o cuidado e a oportunidade que o fotógrafo teve de capturar momentos, nuances, da vida de homens e mulheres nesta região e da natureza que imprime nos paredões de granito ou de arenito a sua marca, com um carimbo indelével.
O evento do lançamento de Os Chicos aconteceu no dia 02 de dezembro no Memorial Chesf e reuniu intelectuais, escritores, pesquisadores e amantes da histórias e das histórias, que falam de vida, de "encantados", de desenvolvimento e penúria.
O professor Antônio Galdino, um dos que estudam o rio São Francisco, presente em sua tese de mestrado de Turismo, representou o Secretário de Cultura, Jânio Soares. Gilberto Sérgio, Secretário de Desenvolvimento Econômico representou o prefeito Anilton Bastos. Voldi Ribeiro falou pela Administração Regional da Chesf. O professor José Fernando trouxe a mensagem da Academia de Letras de Paulo Afonso. Também falaram da importância didática deste projeto a Professora Cleonice Vergne, pela UNEB e o Professor Roberto Ricardo, geógrafo, escritor e presidente do Instituto Geográfico e Histórico de Paulo Afonso. O presidente da Câmara de Vereadores, Rgivaldo Coriolano também exaltou os autores e chamou a atenção para os cuidados com a preservação do rio nesta região e a revitalização dos lagos e da Cachoeira de Paulo Afonso.
Um dos que tem batalhado muito para que todos tomem consciência da importância do rio São Francisco é o Padre Celso da Anunciação, da paróquia de São Francisco.
Representando-o, Neuza Batista apresentou uma mensagem que alcançou a todos, inclusive os autores do projeto, pela sua profundidade, mesmo que mostrada de forma tão simples.
"Francisco é uma palavra latina, significa que vem da França, mas também Francisco significa franco, de caráter determinado. O nome, como o rio, tem sua determinação: atravessar, correr, chegar, ir carregando como na lógica das águas o instável em sua alma. O rio só quer correr, pois assim realiza seu mistério de ser rio. Suas águas não se detêm, passam, atravessam, se vão.
Porém, tal é o mistério do rio que passa entre nós, que ele vira gente, não se contenta em correr, atravessar Minas, Pernambuco e Bahia, não se contenta em oferecer saliva para o sertão, não se basta em ser grande no que banha, esse rio vira gente: Francisco vira rio e o Velho Chico vira gente. É por este mistério que estamos aqui. É louvável este trabalho que vem ressaltar a simbiose entre o rio e as pessoas.
Mas o rio, como as pessoas, nós queremos inteiro e não cortado, explorado, depredado, poluído. Não existe a dignidade do corpo quando a tortura mutila; não existe a pessoa quando os traumas assolam a alma; não existe a vida quando os órgãos são retalhados. Assim, não existe o rio que virou pessoa, se suas águas são vendidas, suas possibilidades exauridas pelo lucro, sua vida dizimada. Que nesta noite de pessoas e rio possamos reafirmar: o rio, como as pessoas, nós queremos inteiro, vivo e não morto, aos pedaços."
A noite de autógrafo de Os Chicos, organizada pela Chesf com o apoio da Prefeitura de Paulo Afonso, contou com o cuidadoso trabalho de Rosângela Meneses, Pelé do Memorial, além de Voldi Ribeiro e grande equipe que sempre fica nos bastidores.
Representando todos os Chicos que fornecerem o conteúdo para esse trabalho, estavam presente José Francisco Silva, que cuida do rio lá no Mirante do Talhado e vive no Povoado Olha Daguinha, na zona rural de Delmiro Gouveia-AL. Muito querido na região participou há dois anos do projeto Rota do Imperador que refez a viagem do Imperador D. Pedro II desde Piaçabuçu/AL até a Cachoeira de Paulo Afonso. Ao longo da viagem dedicava-se a fazer toalhas e panos de "fuxicos", uma que demonstrou conhecer como poucos.
Outro Chico presente foi Fancisco Pedro da Silva, conhecido como Chico da Patrol, morador de Petrolândia-PE e que, por força da necessidade de trabalho, cuida de rasgar a terra sertaneja para por ali passarem as águas o rio São Francisco nos canais da transposição.
Nunca se reuniu tantos Franciscos e Franciscas, contando histórias, numa mesma publicação. E os seus contos, os seus feitos e a terra que seus pés percorrem nesses caminhos do São Francisco estão documentados, em prosa e fotopoesia nos dois volumes de Os Chicos, de Gustavo Nolasco e Leo Drumond. Excelente material de leitura, pesquisa e reflexão.



