Undergrude faz da despretensão um trunfo musical

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  • 15 de março de 2011
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Undergrude faz da despretensão um trunfo musical  

A cantora Marcela Bellas e os compositores Jorge Papapá e Helson Hart criaram música para a internet, mas com jeito de CD
 
 
Por MARCOS DIAS / A Tarde


No verão passado, a cantora e compositora Marcela Bellas e os compositores Herson Hart e Jorge Papapá reuniram-se e, como é comumquando isso acontece, surgiram novasmúsicas. Ao ouvilas em bloco, sentiram que era uma coisa diferente do que cada um faz em suas carreiras, individualmente.Surgiaentãoo Undergrude.

É nesseespírito,deafetosque se querem juntos, grudados mesmo, mas abertos a influências diversas, que eles pensam em tocar a banda. Tocar, em termos. "Foi mais uma coisa de gerar conteúdo, registrar o que somos e que também fica disponível para outros, porque cada um tem uma carreira, mas não nego a possibilidade de shows juntos", afirma Marcela, que mora atualmente em São Paulo e já prepara seu segundo disco, após o Será que Caetano Vai Gostar?.

Comprodução musical de Rovis Pascoal e mixagem e masterização de Tadeu Mascarenhas, o Undergrude não existe no formato físico, aquela mídia redonda que substituiu o vinil, mas isso não parece incomodar os músicos. E Papapá até considera providenciar cópias, mas isso não estava nos planos.

"A ideia não era fazer um CD, mas gravar as músicas e lançar na internet. O Undergrude foi criado para não existir", diz ele, para completar, paradoxalmente: "Quemsabe esse não querer fazer seja o pontapé para fazer?".

Que seja.

Alegria Porque é festa mesmo, é prazer de estar junto, comdelicadeza e humor, o que eles trazem num projeto que guarda, de alguma forma, semelhança com o Tribalistas.

Esse querer/não querer assumir o formato, o evidente prazer em deixar os egos diluírem-se em algo maior que o individual, desdobrando-se, enfim, no próprio Undergrude: músicas e achados poéticos com desconcertante alegria.

"Arranhe minha pele, corte meu pulso, me jogue contra o muro, me dê, me dê, me dê um murro. Mas na minha cabeça não toque, se toque; na minha cabeça cê não mexa, me deixa; eu moro lá dentro feito um caroço na ameixa", dizem eles em Por Pior Que Lhe Pareça, composição dos três.

E também fazem molecagens: a hilária (e lírica, creia!) Maravilhado, de Jorge Papapá, com interpretação hipnotizante de Marcela.

É um pop cheio de tentáculos também com o rock e a própria MPB, mas é despretensioso e foge, como acredita Hart (do Sambatrônica e ex-Gang Bang), à maioria dos clichês do que quer que se chame de MPB: "Não há uma tendência em se levar a sério, é meio um raio-X das nossas influências".

Como um trio e como projeto pop que se arrisca entre a satisfação virtual e os compromissos individuais, o charme do Undergrude também está na urbanidade explícita (e baiana!), que se revela na balada autoirônica Acreditei (Bellas e Hart), ou na forte Deixe Só, dos três, com participação de Daniel Cohen na guitarra. Sem ressentimentos, como o tempo pede.

"A música vem de momentos iluminados que não acontecem toda hora", diz Hart.

Os tais "momentos iluminados" acontecem e surpreendem a cada faixa. Em Maravilhado, uma ótima aproximação do amor/paixão, conceitos que parecem não caber mais para definir relações: "Me diz então por quê fiquei tão maravilhado?".