Collor e marajá resistem 20 anos depois
Mendes de Barros continua na boa vida e hoje é vizinho do ex-presidente, que em 1989 o tomou como mote de campanha
Há 20 anos, o Brasil elegia seu primeiro presidente civil após 25 anos da ditadura militar. No dia 17 de dezembro de 1989 Fernando Collor chegava à Presidência da República como famoso "caçador de marajás". Seu vitorioso slogan nasceu da campanha que então governador de Alagoas promoveu contra os servidores públicos que ganharam muito e trabalhavam pouco. Um deles, o advogado Mendes de Barros, então procurador-geral da Assembleia Legislativa, encarnou a figura do marajá e virou mote da campanha collorida.
Vinte anos depois, Mendes de Barros, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, edição de quarta-feria 17, faz um balanço do que foi e do que ficou do governo Collor.
Com uma aposentadoria de R$ 25 mil mensais, somada à renda do seu escritório de advocacia, cujo valor não revela, o alagoano Luiz Gonzaga Mendes de Barros leva o que se pode chamar de uma vida de marajá nos padrões locais. Ele mora na aprazível praia de Jatiúca, em Maceió, tem fazenda, carro importado, viaja pelo País e o mundo sem embaraços e desfruta de pra-zeres proibidos para os cidadãos comuns, como, por exemplo, fumar tabaco aromatizado importado em cachimbos cromados e torrar generosas somas em mesas de pôquer.
Barros foi transformado em marajá mais famoso do Brasil na campanha eleitoral de 1989, após ser apontado pelo então candidato Fernando Collor como modelo de servidor público parasita, que ganha muito, trabalha pouco e vive cercado de mordomias. Na época ele recebia o equivalente a R$ 45 mil, mais que o dobro do teto de então. Foi acusado por Collor, que se elegeu com o discurso de caçador de marajás, de fabricar leis em benefício próprio na Assembleia Legislativa, onde era consultor jurídico. Barros teve o salário congelado em um quinto do valor e foi alvo de execração pública no País.
Debochado, ele se deixou fotografar com uma caixa de isopor no dia em que chegava à Assembleia "para receber o salário congelado", como explicou na ocasião. A imagem correu o País e só reforçou o prestígio do caçador de marajás, que acabou eleito no dia 17 de dezembro de 1989 – exatos 20 anos completados ontem -, em apertada disputa com o petista Luiz Inácio Lula da Silva. O que vem a seguir é de amplo conhecimento: acusado de envolvimento num esquema de corrupção comandado por seu caixa de campa-nha, Paulo César Farias, o PC, Collor acabou afastado do cargo em meio a um processo de impeachment e amargou anos de ostracismo.
Só recentemente o ex-presidente voltou à cena política, após se eleger, em 2006, senador por Alagoas. Barros teve trajetória inversa: descongelou o salário imediatamente e aos poucos recuperou seu valor integral em todas as instâncias da Justiça, inclusive no Supremo Tribunal Federal (STF). Hoje com 75 anos, deu a volta por cima, tornou-se celebridade requisitada para palestras e entrevistas e agora virou tema de livro. Por ironia do destino, os dois dividem atualmente vizinhança no bairro de Jatiúca, que alguns sugerem mudar o nome para Carandiru. Barros garante que a sugestão não é dele.
Ironia – O livro A Vez da Caça, produção independente de 306 páginas, descreve o outro lado da trajetória de Barros, um personagem instigante, político astuto e advogado de humor ácido, que durante cinco décadas viveu no epicentro dos principais acontecimentos de Alagoas e do País. Quase no nirvana, hoje ele se dá ao luxo de traba-lhar quando quer e para quem quer. "Não dependo de conchavos espúrios para sobreviver", observa ele, no seu estilo mais característico, a ironia.
Há quem diga, porém, que Barros blefa. Na verdade, ele também perdeu muito com o episódio e não foi só a renda. Boêmio e extravagante, ele costumava desfilar pelas ruas de Maceió pilotando um Camaro de luxo, mo-delo importado da GM, o qual trocava todos os anos. Na garagem, sempre tinha pelo menos mais dois carrões. Hoje, contenta-se com um Santa Fé, da Hyundai, que custa em torno de R$ 120 mil.
Do glamour do passado, ele conserva o hábito de usar terno de linho branco, sempre impecável e fumar cachimbo aromatizado importado. Também lhe teriam minguado o prestígio político e os ganhos do escritório de advocacia, antes um dos mais procurados do Estado. "Acho que o apogeu já passou e ele leva uma vida confortável, mas sem exageros", resumiu o autor do livro, o jorna-lista Joaldo Cavalcante. "Hoje ele é um marajá de calça curta", resume.
Mas Barros não dá o braço a torcer e assim define o desfecho do embate: "Collor me levou com ele para o palco nacional. Ele saiu daquele jeito, enxovalhado pela mídia como ladrão – aliás, a mesma mídia que o consagrara como salvador da pátria. Eu ga-nhei a guerra, recebi os atrasados e me aposentei como marajá."
Fonte: www.extraalgoas.com.br



