Alagoas é o berço da resistência negra no Brasil e por isso, a Serra da Barriga, que abrigava o Quilombo dos Palmares foi reconhecida pelo Governo Federal, na década de 80, como monumento histórico e em 1988 passou a ser considerada como monumento nacional pelo Decreto nº 95.855. Assim, a responsabilidade pela manutenção e presevação do sítio histórico da Serra ficou a cargo da Fundação Cultural Palmares.
O dia da Consciência Negra é utilizado para discutir a questão da igualdade racial e a data foi incorporada pelo movimento negro desde os anos 70 para promover fóruns, debates e programações culturais. Em janeiro de 2003, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, assinou a Lei 10.639/2003, incluindo o dia no calendário escolar.
Na contramão da história, a população negra alagoana continua sofrendo com a pobreza e o desemprego e é vitimada pela violência, visto a quantidade de jovens assassinados nos últimos anos, embora o povo quilombola, a princípio excluído, tenha tido seus direitos reconhecidos e participado de ações voltadas para a saúde e a educação.
Em Alagoas a data é comemorada principalmente em Maceió e União dos Palmares e em 2008, mais de 166 municípios aderiram ao feriado, um aumento de 61% no número de municípios em relação aos 269 do ano anterior. O Estado de São Paulo teve o maior aumento. Eram 28 municípios em 2007 contra 97, de 2008. Já em Salvador, onde mais de 85% da população é formada por negros e mestiços o feriado não foi instituído.
No Mato Grosso e no Rio de Janeiro, o feriado é estadual e, em 2008, o Mato Grosso do Sul também tornou o dia feriado em todos os municípios. Já, nos outros estados, é definido por cada administração municipal. Além das capitais do Rio de Janeiro – primeira cidade a decretar feriado em homenagem a Zumbi dos Palmares, em 1995 – São Paulo, Amazonas e Mato Grosso, Porto Alegre, Florianópolis e Goiânia aderiram ao feriado em 2008.
O historiador Zezito Araújo explicou que o movimento negro obteve algumas conquistas, que serviram para melhorar a condição social da população em Alagoas, principalmente em relação aos quilombolas, espalhados pelas cidades do interior do Estado, embora ainda faltem políticas públicas para tirá-los da miséria.
"Agora a população negra tem mais visibilidade no Estado e perante a sociedade, mas ainda não há políticas públicas específicas, porque 52% vive abaixo da linha de pobreza. No contexto das religiões há muito preconceito, esse é o segmento que mais sofre, apesar da legalidade para realizar seus cultos", destacou Araújo.
Ele lembrou que algumas ações governamentais, como a criação da Secretaria das Minorias, no governo anterior e a Gerência afro quilombola da Secretaria Estadual da Mulher e Cidadania e dos direitos humanos. "Precisamos de mudança significativas. A Ufal já tem núcleos temáticos, cotas, bolsas de estudos voltados para negros", destacou.
Em relação as ações do movimento só terem visibilidade no mês de novembro, ele afirmou que isso não acontece apenas em Alagoas. "Aqui há um trabalho permanente em prol das comunidades quilombolas. Mas, no dia 20 a população brasileira se mobiliza mais. Os negros lutam permanentemente pelos seus direitos", disse o historiador.
Já a coordenadora do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros (Neab), da Ufal, Clara Suassuna lembrou que as instituições envolvidas com o movimento trabalham o ano inteiro e que o dia 20 é importante para reunir essas ações e por ser uma data histórica, merece ser reverenciada.
"Junto a Fundação Palmares conseguimos o reconhecimento de 25 comunidades quilombolas. Temos algumas datas específicas para potencializar as ações e fazemos capacitações no interior, práticas pedagógicas, trabalhos nas comunidades, produção de livros, com o Kulé Kulé, além de seminários junto ao Fórum de Educação em outras datas, para não concentrar apenas em novembro", explicou a coordenadora.
De acordo com ela, apenas a qualificação da mão de obra e o acesso à educação fará a população negra ter novas perspectivas de vida. "Esse é um trabalho a longo prazo, mas precisamos dele urgentemente. Depende de ações sistemáticas do governo do Estado e a mídia tem seu papel, mas só nos procura nessa data. A população brasileira precisa estar atenta, porque 51% dela é representada por negros e pardos e se incluirmos os índios, chamados de negros da terra, equivale a 55% . As questões continuam invisibilizadas pela classe dominante, não podemos continuar assim", reforçou.
A professora Ângela Bahia, que foi coordenadora do projeto AfroAtitude, da Ufal lembrou que a comemoração do 20 de novembro é um resgate e reparação de uma história que está sendo reescrita. "O reconhecimento é fruto da luta incessante do movimento negro. Aqueles que foram vencidos nunca escrevem a história, mas agora os oprimidos dão sua resposta. Há trabalhos da Ufal em Viçosa, estudos sobre literatura e agora um novo conceito dos negros no SUS, uma luta de dez anos, porque eles compõem a maioria dos usuários", disse.
Ela destacou ainda, que as reverências à Serra da Barriga são merecidas, uma vez que em nenhuma parte do país existe um local tão cheio de simbologia e representatividade negra. "É um monumento histórico, paisagístico e arquitetônico que foi tombado e é o berço da liberdade", explicou a professora.
Fonte: www.cadaminuto.com.br



