Cota abre portas e revela talentos na universidade

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  • 23 de novembro de 2008
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Os estudantes Gilcimar, Neomar e Ícaro Luiz têm mais coisas em comum do que a cor da pele. Eles dividem seu tempo entre o trabalho e o estudo e entraram na mais tradicional universidade baiana através do sistema de cotas. E têm ótimas notas.

O desempenho dos alunos cotistas jogou por terra um dos principais argumentos dos que são contrários às cotas nas universidades públicas, cujo projeto de implantação em todas as instituições federais de ensino do país foi aprovado por unanimidade pela Câmara de Deputados, na última quinta-feira.


Gilcimar é um dos cotistas da Ufba. Cursa psicologia, tem boas notas e quer mudar outra realidade:

Pelo menos é o que demonstra a pesquisa sobre impacto do programa de ações afirmativas na Universidade Federal da Bahia (Ufba). De um total de 57 cursos de graduação, em 32 os cotistas apresentaram rendimento igual ou melhor do que os não-cotistas no intervalo de notas entre 5,1 e 10.Um percentual de 56%. São ao menos quatro mil estudantes num universo que beira as 20 mil pessoas.

A pesquisa na Ufba revela ainda que, em 11 dos 18 cursos de maior concorrência no vestibular, os cotistas obtiveram coeficiente de rendimento igual ou melhor do que os não-cotistas. Entre eles, medicina, direito e jornalismo. Segundo explica o antropólogo Jocélio Teles, coordenador da pesquisa, o coeficiente de rendimento é a média aritmética de todas as matérias cursadas em um determinado período, varia de 0 a 10, e o limite de aprovação é de 5.

‘Nunca tive dificuldade em acompanhar os assuntos em sala de aula. Na verdade, minha maior dificuldade foi encontrar meios de permanecer estudando, já que meu curso exige, às vezes, que se fique o dia todo estudando’, explica o estudante do 4º ano de psicologia Gilcimar Santos Dantas, 28anos. Suas médias na maioria das matérias cursadas estão acima de 8. Ele foi o primeiro universitário da rua onde mora, no Beiru, um dos bairros com maiores índices de homicídios na cidade.

‘Ao contrário da expectativa daqueles que se mostravam resistentes à implantação do sistema de cotas, e que temiam uma desqualificação do ensino pelo ingresso de estudantes, supostamente, despreparados n auniversidade, o desempenho dos cotistas revela resultados bastante animadores, nos cursos das diversas áreas de conhecimento’, afirmou Teles, por e-mail, ao CORREIO. Ele é ex-diretor do Centro de Estudos Afro-Orientais da Ufba.

INSISTENTE Gilcimar entrou na universidade após seis anos de revezes em vestibulares. Diz não ter passado por constrangimento por ser cotista. Nos primeiros dois anos, dividiu o tempo entre as aulas e os empregos esporádicos até conseguir uma das bolsas disponibilizadas pela Ufba. Recebe R$300 para custear despesas de alimentação e transporte. Seu próximo passo é a pós-graduação.

‘Não temos professores negros efetivos no meu curso e se discute a colaboração de pesquisadores negros para a psicologia. Quero mudar este quadro’, revela. Os dados dos estudos são de 2005 e 2006, anos de início da vida acadêmica da primeira leva de cotista da Ufba.

A universidade começa a realizar no momento uma pesquisa mais abrangente sobre o tema. ‘Os primeiros resultados estão previstos para serem conhecidos em dois anos’, informa o sociólogo e professor da Universidade de São Paulo Antônio Alfredo Guimarães.

Em maio passado, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgou o resultado de um estudo que já havia concluído que cotistas apresentam rendimento similar ou até melhor em relação aos não-cotistas em 54 universidades públicas que têm sistema de cotas.

Falta apoio para permanência
Maiores beneficiários com o sistema de reserva de vagas pelo critérios racial e social, mas longe de se considerarem satisfeitos. ‘A universidade resolveu um problema: o do acesso. Possibilitar que o estudante negro e pobre chegue até o fim do curso é outro problema que não foi resolvido até agora’.

Quem fala é o mestrando em administração Ademário Júnior. Ele integra o Núcleo de Estudantes Negros da Ufba (Nenu), criado ainda em 2002, três anos antes da implantação do sistema de cotas. O grupo é uma espécie de representante do Movimento Negro Unificado (MNU) dentro da instituição e já chegou a ocupar a Reitoria para pressionar pela aprovação do programa de ações afirmativas.

‘O programa não foi implantado na sua totalidade. Falta um restaurante universitário para que os estudantes pobres possam fazer suas refeições na universidade, falta um número maior de bolsas de estudo. E uma ouvidoria para que estudantes cotistas que passem por constrangimento na universidade possam denunciar essas situações’, diz a cotista Jamile dos Santos Carvalho, 24 anos, estudante de sociologia.

O sistema de cotas foi implantado em 2005 e estabelece 36,55% do total de vagas da universidade para quem estudou em escola pública e se declara preto ou pardo. Outros 6,45% para estudantes de escola pública não-pretos. E 2% é reservado para os descendentes de índios.

O vôo de Ícaro teve destino certeiro: o curso de Medicina da Ufba

O caminho até o diploma da profissão mais concorrida no vestibular da Ufba é pedregoso para o estudante Ícaro Luiz Vidal dos Santos, 21 anos. Entre os obstáculos estão os caudalosos livros de medicina enfrentados com o cansaço de quem precisa trabalhar para se manter nos estudos. Não são poucas as noites em que dormiu estudando após a jornada dupla.


Ícaro trabalha e estuda: dedicação será paga com o diploma
(Foto: Marina Silva/CORREIO)

Soma-se a isso a dificuldade de adaptação a um novo ambiente, em que alguns professores criticavam abertamente o sistema de cotas. ‘Tive um professor de microbiologia para quem todos os problemas da universidade eram culpa do sistema de cotas’, diz o morador da Liberdade, bairro ícone da cultura negra de Salvador.

No começo, ele chegou a pensar em desistir, mas sua formatura representa a possibilidade de ascensão social da sua família. Servidor público desde o início do curso, Ícaro não pode se dar ao luxo de largar o emprego para estudar num curso onde o nível de exigência é um dos mais elevados. ‘Sou um bom aluno, mas acho que poderia render mais sem o emprego. Mas não vou abrir mão dele nem da faculdade’.

Neomar é o melhor da turma
Filho de um gari e de uma dona de casa, o estudante de jornalismo Neomar Almeida Rosário, 21anos, em média geral 9, a maior da turma. O cotista tem pouco tempo para fixar os ensinamentos em sala de aula. Após o término das aulas, ele dispara para o Instituto do Meio Ambiente (IMA), em Mont Serrat, onde trabalha por seis horas.


Neomar estuda, trabalha e tem média 9 (Foto: Paulo M. Azevedo/ CORREIO)

Depois, viaja pelo menos uma hora até Pernambués, para casa. ‘Como não tenho muito tempo para estudar, tento apreender ao máximo o que é dito em sala. Preciso otimizar o pouco tempo que tenho’.

(Reportagem publicada na edição de 23/11/2008 do jornal CORREIO)